No meio de tanta agitação habitual do dia-a-dia, tanta correria, coisas para tratar, preocupações e decisões... É muito fácil cair na tentação de dar importância ao irrelevante. Não é fácil, é mais que isso, é frequente... Recorrente. Pior, é o que nos faz depois sentir culpados por falharmos com pequenas coisas. Tudo junto começa a ser importante, e muitas pequenas coisas começam a parecer uma grande coisa.
Tomei consciência de que me estava a deixar levar por uma corrente negativa de exageros naquilo que fazia. Chegava a casa já à espera de que tivesse acontecido alguma coisa que me iria irritar... Irritava-me já sabendo que não me ia controlar e descontrolava-me na certeza de que me iria arrepender. Solução? Não há. Mas tomar consciência de que estamos a fazer errado já é muito bom.
De repente dou comigo a pensar: "até parece que és uma mãe normal... Até parece que és igual a todas as outras mães... Até parece que os teus filhos são iguais a todos os outros filhos de todas as outras mães...!"
Na realidade... Eu não sou uma mãe igual às outras e os meus filhos são diferentes da maioria dos outros. Portanto, tenho que me comportar como tal. Eu não tenho desculpa. Tenho mais que obrigação de saber melhor, de perceber melhor e tenho mais que a obrigação de fazer melhor. Porquê?
Porque...
Eu sou uma mãe que quando estava grávida do seu 2 filho, de 5 meses, recebo a notícia de que o meu marido, o meu amor, o pai dos meus filhos, estava com um cancro nos pulmões, em fase terminal, com metástases espalhadas pelo resto do corpo. Fui à consulta com ele quando o médico nos explicou tim-tim por tim-tim o que se estava a passar. "Não tem cura, não é operável, vamos fazer tratamentos para lhe proporcionar a melhor qualidade de vida possível"...
Durante quanto tempo? Não nos disse...
Nesse dia, o pai dos meus filhos que eu tanto amava e que tanto me adorava fez-me uma promessa que não sabia possível de não cumprir. "Meu amor, não é desta, acredita, eu não vou morrer assim... Tenho que cuidar de ti e dos nossos filhos. Não te preocupes, não vai ser desta...!" - sentados num banco de jardim em Valbom, de mãos dadas ficamos em silêncio, como se nada existisse à nossa volta.
Porque eu sou uma mãe... Que durante dois anos lutou pela vida do pai dos seus filhos, fez de tudo o que podia para que ele estivesse o melhor possível.
Porque...
Eu sou uma mãe que teve que explicar o inexplicável aos seus filhos. Uma mãe que teve que dizer que "o pai foi com o Jesus para o céu"... Que teve que pegar nos seus filhos e sem chorar dizer-lhes "vai tudo correr bem, não se preocupem, a mãe vai estar sempre aqui, temos o pai no nosso coração!"
Porque é que eu sou uma mãe diferente?
Porque tenho que responder a perguntas para as quais não tenho resposta.
"Oh mãe, porque é que o pai não pode descer pela chuva?"
"Quando é que o pai volta?"
"Porque é que o Pai morreu?"
Porque apesar de não ter estas respostas tenho que dizer sempre alguma coisa, nem que seja:"não sei, meu amor, a mãe também não sabe"... E só Deus sabe o quanto me dói, me consome por dentro ver o sofrimento dos meus filhos, vê-los chorarem de saudades do pai, vê-los sofrerem com a ausência de quem mais lhes faz falta.
Eu sou uma mãe com a obrigação de saber gerir as pequenas coisas pois afinal... Estas são as grandes e é para estas que eu tenho que ter força, é para estas grandes que eu tenho que ter toda a calma do mundo, portanto não me posso ir esgotando aos poucos com as outras pequenas coisas. Eu tenho obrigação de não me esquecer nem por um instante do que é realmente importante.
Hoje, passados 3 anos e 9 meses, continuo na certeza de que jamais irei entender. Mas começo finalmente a saber encontrar a serenidade para poder aceitar. Vivo hoje a esperança de conseguir "viver com saudade e não na saudade" (obrigada JCB)
"Mãe, tenho saudades do pai...!"
É por isto que os meus filhos são diferentes. Viver nesta saudade com tanta alegria e amor não é para todos... E eles sabem fazê-lo e sabem, todos os dias, mostrar-me que isso sim é realmente importante. Porque tal como hoje, tantas outras vezes, conseguem tranquilizar-me, amar-me e dizerem sem falar :"está tudo bem, vamos estar sempre aqui"
Obrigada meu Amor, pela força de vida que me deixaste, pelos frutos que me deste.
Cumpriste a promessa sim, porque tu não morreste, estarás sempre em nós, vivo nos nossos corações!
Boa noite, até amanhã.